Rio de Janeiro, Brasil
29 de outubro de 2025
____________________________________________
Megaoperação no Rio
sobe para 121 o número de mortos
Mais um para as estatísticas
Foi como se todos nos morros soubessem, desde muito tempo, que essa notícia um dia viria. A mãe pressentiu na noite anterior, e passou a madrugada em claro, conversando baixinho com os travesseiros, para proteger o sono dos filhos. Na manhã seguinte, a Penha e o Alemão acordaram sob o mesmo peso. Os passos nas vielas pareciam arrastados, como se o tempo estivesse turvado pela espera. A vida cotidiana, dos jogos de bola nos becos ao som de crianças correndo, ficou suspensa, lembrança de dias em que as sirenes e os tiros interrompiam todas as histórias possíveis. Foi um aviso em duas frentes: primeiro, vieram as mensagens nos grupos de WhatsApp, depois o rumor que subiu pelas ladeiras como um vento quente e pesado. Moradores fecharam portas, mães repetiam o nome dos filhos com mais força, como se a simples pronúncia pudesse afastar algo que já parecia inevitável.
Moradores contaram que o estrondo das balas parecia arrancar pedaços do ar, que a fumaça dos veículos queimados encobriu o sol e fez as crianças se recolherem às janelas com os olhos arregalados. Porém, mesmo os mais novos, já conheciam esse som: um aviso dos dias em que o chão balança, e as histórias ficam sem conclusão. E assim as ruas se encheram de passos lentos. Em silêncio, a Penha e o Alemão se abraçaram em luto pela Serra da Misericórdia.
Chegou na porta de casa, chamou a mãe, a mãe chamou a avó, e avó foi carregada pela as duas tias para fora, reuniu todas mulheres que o criaram. Apreensivas fizeram silêncio – pareceu que toda a favela. Apreensivos, a favela se emudecia com a fumaça ainda presa na garganta, quando as primeiras listas começaram a circular, nomes escritos depois do reconhecimento feito como uma procissão dolorosa. A cada sílaba lida havia um corpo, um rosto, uma lembrança de aniversário, de futebol no fim de tarde.